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Também dividem oferta de produtos e serviços como estratégia para diversificar negócios

RAPHAELA RIBAS

União de esforços amplia alcance dos negócios – Pixabay

RIO – Em tempos de crise, a coletividade está se transformando na alma do negócio para muitos comerciantes e produtores. Com as vendas fracas por causa da combinação do desemprego em alta e de funcionários públicos sem salários, eles estão encontrando na economia criativa e colaborativa o seu ganha-pão. De donos de lojas que se reinventam, recorrendo a feiras e espaços compartilhados em shoppings, a proprietários de restaurantes que organizam eventos, esse movimento vai além da readaptação e leva ao surgimento de novos modelos de negócios no estado.

É o caso de Mamour Sop Ndiaye e Marina Carneiro. Ambos estão investindo em propostas de comércio baseadas em parcerias. Ele, que é do Senegal e está no Brasil desde 1998, alugou um espaço na Rua do Catete e criou o Savana Rio, onde funcionam um espaço para aulas de dança, dez lojas e um café de microempresários que, em sua maioria, confeccionam seus próprios produtos. A ideia é que ali também sejam oferecidas aulas de matemática e francês gratuitas para as crianças do bairro e um coworking no segundo andar.

Ndiaye explica que, para quem vê de fora, o local funciona como qualquer outra galeria, em que os espaços são sublocados e o administrador fica responsável por manter uma boa estrutura, com segurança e limpeza. Mas o que faz a diferença, segundo ele, é o fato de todos participarem das decisões que dizem respeito ao grupo, da divulgação das marcas na fachada ao consentimento para que novos parceiros entrem no negócio.

A proposta desse modelo surgiu quando Ndiaye e sua mulher, Sokhna, buscavam um lugar com os mesmos valores de cooperação existentes em seu país, como a valorização individual de cada marca, a colaboração mútua e a troca de conhecimento.

— Minha esposa começou a criar roupas com tecidos trazidos do Senegal e as vendia em um camelô. Depois, fomos para uma galeria em Copacabana. Tentamos outras duas depois, mas era tudo muito focado em apenas pagar o aluguel, não tinha senso de coletividade. Foi então que viemos para cá — conta Ndiaye.

Chance no shopping

O modelo é parecido com o que Marina Carneiro está seguindo. A empresária criou a Retoke, um espaço com várias marcas que dividem uma loja no shopping. Cada um paga pelo espaço proporcional que ocupa. Marina e uma sócia são responsáveis pela administração, que inclui desde o aluguel da loja até a contratação dos vendedores.

Segundo ela, o custo para o microempresário é, em média, um décimo do que se bancasse um espaço sozinho. Hoje, são duas lojas nesse modelo, uma no Botafogo Praia Shopping e outra no Shopping Tijuca, além da Feira do Lavradio, na Lapa, sempre no primeiro sábado de cada mês.

— Para quem está começando e não tem dinheiro para abrir uma loja inteira, é uma boa proposta de economia colaborativa. Oferecemos um plano de negócio e a gestão burocrática para que esse microempresário possa se firmar e abrir sua própria loja — diz Marina, que viu a oportunidade surgir nestes tempos difíceis. — A crise é boa nesse sentido, sem ela não teríamos chance de implantar esse modelo em um shopping. Acho que será uma tendência, no futuro, ter grandes marcas compartilhando espaços porque isso é interessante também para o consumidor.

Para a pesquisadora do Centro de Estudos de Consumo do Coppead/UFRJ Ana Paula de Miranda, não é apenas o empresário que muda, mas o consumidor também.

A construção de novos valores acontece quando veem que aquela visão de mundo não funciona mais, explica a pesquisadora. Segundo ela, hoje, o Rio vive um momento de resistência e transição:

— As pessoas se sentiram traídas com as marcas envolvidas em esquemas de corrupção e passaram a olhar para os pequenos produtores, valorizando o “olho no olho”. As grandes marcas terão que repensar seu posicionamento.

Categorias: ECONOMIA SOLIDÁRIA

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