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David Carneiro
Em “A Grande Saída”, o nobel de economia Angus Deaton discute os avanços na luta contra a pobreza e os desafios da desigualdade crescente
Holger Motzkau – CC
Angus Deaton

Para o Nobel de Economia, desigualdade é uma ameaça ao bem-estar global

Do lado de Deaton, os números. O livro aponta para uma série de conquistas humanas, em grande parte incontroversas. Crianças nascidas na África subsaariana têm mais chance, hoje, de completar cinco anos do que tinham as nascidas na Inglaterra do século XVIII. Desde a década de 60, a expectativa de vida ao nascer dispara na maior parte do mundo.

Por outro lado, o autor reconhece que os processos recentes de fuga da morte e da miséria humanas nos últimos séculos foram também atravessados por processos de espoliação e subjugação de povos, aceitando em parte o adágio de que “todo o ato de civilização também é um ato de barbárie”. Para o economista escocês, os níveis de desigualdade também estariam se tornando alarmantes, o que prejudicaria, inclusive, a redução da pobreza e a expansão do bem-estar no mundo.

Seja como for, no entanto, o mundo teria mudado. Para Deaton, vivenciamos desde 1980 a maior e a mais rápida redução da pobreza mundial já vista, puxada, sobretudo, pelas melhorias nas condições de vida na Índia e na China. Entre 1981 e 2008, caiu de 40 para 14% a parcela da população com renda inferior a um dólar por dia. A despeito das controvérsias, estima-se também que a renda média de todos os habitantes do mundo teria crescido de sete a oito vezes entre 1820 e 1992. Por outro lado, cerca de um bilhão de pessoas ainda viveriam na penúria extrema. Desse modo, se muitos encontraram “a grande saída”, outros muitos ficaram para trás.

Mas a que fatores poderiam ser creditadas tantas mudanças? No que diz respeito à saúde, segundo Deaton, quando tentamos atrelar o início do crescimento econômico aos progressos alcançados, os calendários simplesmente não coincidem. As melhorias nos indicadores mostram-se demasiado uniformes e beneficiaram, muitas vezes, mesmo os países que apresentaram um crescimento pífio nas últimas décadas. O Haiti, por exemplo, cuja economia encolheu entre 1960 a 2009, teria logrado reduzir a mortalidade infantil com intensidade, muitas vezes, superior às visualizadas na China e na Índia.

Os resultados, segundo o economista escocês, deveriam ser creditados aos avanços no controle de doenças, principalmente em função de políticas de saúde pública. A assimilação da teoria microbiana das doenças, as melhorias no abastecimento de água, no saneamento básico e a vacinação periódica, por exemplo, foram alguns dos instrumentos utilizados em todo o mundo que melhoraram substancialmente a qualidade de vida da humanidade e lograram aliviar situações de penúria e privação extremas.

Segundo Deaton, as melhorias substanciais na qualidade de vida em todo o mundo não estariam sendo acompanhadas, por outro lado, de uma distribuição justa da riqueza global. Utilizando o exemplo dos Estados Unidos, o autor mostra que, a partir da década de 70, há uma dissociação entre crescimento econômico e redução da pobreza. “A maior renda estava indo para algum lugar, mas, sem dúvida, não para aqueles oficialmente classificados como pobres”, diz a certa altura.

A resposta estaria, em parte, na globalização. A migração dos postos de trabalho e o achatamento dos salários mostrariam que a abertura dos mercados, benéfica em muitos aspectos, segundo o economista, também produziria uma face perversa, gerando muitos “perdedores” no meio do caminho do “progresso”. Outra explicação restaria nos crescentes gastos com os serviços de saúde, que pesariam de forma demasiada no orçamento do trabalhador americano.

Deaton vai além, no entanto, ao mostrar que a desigualdade ou a “globalização” não são dados naturais, imunes às injunções e escolhas políticas. No caso da desigualdade, mostra por exemplo, o efeito das políticas de salário mínimo sobre a divisão da riqueza, aplicadas, muitas vezes, como se não houvesse contestação científica de seus pressupostos. Da mesma forma, os cortes de impostos para os mais ricos foram outro tipo de política deliberada que teriam feito crescer a desigualdade.

Nesse ponto, o economista contesta firmemente a ideia de que a crítica da desigualdade, per se, seria fruto do ressentimento contra os ricos, argumento corrente no debate ideológico. O ponto central, para Deaton, é que a desigualdade econômica estaria cada vez mais minando a igualdade política. Cada vez mais os muito ricos estariam influenciando o desenho das políticas públicas e as escolhas dos governantes. Quando somamos esse cenário a novas correlações encontradas entre desigualdade e uma série de males sociais, restaria claro que o combate às desigualdades não seria questão de ressentimento, mas uma agenda central para o bem-estar dos povos.

Ao narrar a “grande saída” ou a “grande fuga” da humanidade da morte e da privação, Deaton não enfrenta de maneira mais profunda os argumentos mais céticos em relação à globalização, reconhecendo, porém, que, excluído o desempenho chinês, de fato, a melhoria nas condições de vida vivenciada no mundo seria bem mais modesta. Da mesma forma, Deaton também não enfrenta problemas caros às maiorias trabalhadoras atuais, como as condições de trabalho e o peso da insegurança nas novas formas de vida geradas pelas demandas de flexibilização e similares.

Por outro lado, Deaton está longe de poder ser acusado de alguma visão celebratória da “Grande Saída”. A crítica de sua própria disciplina, a economia, das políticas públicas e da divisão de poder, somadas ao entusiasmo apenas moderado com o futuro da humanidade, são exemplos disso. No caminho no otimismo, restariam preocupações como o avanço de movimentos conservadores, representados no negacionismo climático e no fundamentalismo religioso. Sua crescente preocupação com a desigualdade, no mesmo sentido, mostra que, mesmo para um legítimo representante do mainstream econômico, há questões vitais para o futuro da humanidade que já não podem ser ignoradas.

* David Carneiro é Doutor em Direito pela UERJ


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